Aconselhamento genético: liberdade de escolha e o risco da eugenia individualizada

  • Bruno Lucas Saliba de Paula Universidade Federal de Minas Gerais

Resumo

Pretendemos debater – sobretudo a partir da noção foucaultiana de biopoder e de seus desdobramentos, como a discussão em torno da sociedade de controle – uma especialidade cada vez mais comum na clínica médica: o aconselhamento genético (AG). Trata-se de uma forma, surgida e aprimorada com os avanços tecnocientíficos na área de biologia molecular, de avaliar a ocorrência ou o risco de ocorrência de doenças de causas genéticas em indivíduos específicos, seus familiares e futuros descendentes. A “não-diretividade” é um dos princípios mais ressaltados no exercício contemporâneo do AG: é a partir de dados objetivos e imparciais que cada paciente fará, livremente, “decisões informadas” (como ajustar sua dieta ou ter ou não filhos). Nesse sentido, interessa-nos discutir, mais especificamente, as congruências entre essas práticas de autovigilância e de cuidado com a própria saúde e a racionalidade política da governamentalidade neoliberal, tal como pensada por Foucault. Para isso, parece-nos relevante empreender uma comparação entre esses fenômenos dos dias que correm e as medidas eugênicas de cem anos atrás. Estas eram levadas a cabo por estados que coercitivamente disciplinavam as condutas individuais e regulavam os movimentos populacionais a fim de promover o “melhoramento da raça humana”. O AG, em contrapartida, parece desenrolar-se num contexto em que cabem aos indivíduos a atenção à saúde e a administração dos riscos. Haveria, então, uma desconcentração do poder estatal, enquanto cidadãos conscientes voluntariamente se engajam na prevenção de doenças e na otimização da saúde a partir de serviços disponíveis no mercado, como o AG. Nossa principal estratégia investigativa consiste, até então, em análises textuais e de discurso de material jornalístico sobre o AG publicado no Brasil. Buscamos identificar nos dados coletados, dentre outros elementos, os pontos de continuidade e de ruptura entre os discursos do estado, de empresas e de indivíduos envolvidos com o AG.

Publicado
2014-08-24