Reconhecendo a rede terrestre

apontamentos para uma antropologia da vida

Autores

  • Beatriz Judice Magalhães

Resumo

A pandemia de COVID-19 surpreendeu o mundo. Se espalhando pelo globo com uma velocidade compatível com os fluxos ditados pelo capitalismo contemporâneo, produziu milhões de mortes e muitas incertezas. Se a epidemia foi mais inesperada para os que, apesar dos inúmeros alertas referentes à crise ecológica e climática, acreditam cada vez mais no domínio humano sobre a natureza, notadamente por meio da ciência e tecnologia, estudiosos da crise já imaginavam a possibilidade de uma pandemia decorrente da crise ambiental. Com a crise pandêmica, vêm à tona muitos aspectos subjacentes à nossa condição (humana) de viventes terrestres. O risco do adoecimento e as mortes em série explicitam a vulnerabilidade da condição biológica, tornando mais perceptíveis, assim, as conexões com os outros-que-humanos, que compartilham tal condição. Mas os riscos dos tempos atuais vão muito além da pandemia. Assistimos a acontecimentos catastróficos, como os incêndios na Amazônia e no Pantanal, e também a eventos extremos como as ondas de calor em diversas partes do mundo, notadamente no continente europeu. Os alertas, provenientes de atores ligados à comunidade científica, ou a instâncias políticas, desde locais até transnacionais, são cada vez mais comuns, e se sobrepõem aos acontecimentos. Os planos de fuga, seja de soluções mais terrestres para a crise, quando propõem, em seu lugar, a adoção de medidas ligadas à geoengenharia, seja, mais radicalmente ainda, do próprio planeta, ao se estudar e se investir em voos espaciais para Marte, também estão presentes nesse tempo de crises, catástrofes e desestruturações. 

Refletir e se engajar para construir uma antropologia da vida requer atenção, sensibilidade e crítica a tantos acontecimentos e forças em jogo. Uma abordagem que busque uma resistência ativa às tragédias em curso, implica que, em primeiro lugar, nos reconheçamos como terrestres, condicionalmente conectados ao planeta onde nascemos e à rede físico-biológica que permite que estejamos vivos. Admitir nossos vínculos com as demais espécies, recusando um antropocentrismo extremo e acionando alguns imperativos da ética ambiental, é um passo imprescindível para concretizar tal empreendimento. A presente proposta buscará trazer reflexões a respeito das temáticas aqui levantadas, contribuindo para os debates tão urgentes e necessários da habitabilidade em um mundo caracterizado pela crise/catástrofe ecológica e climática e das contribuições que uma antropologia da vida pode trazer para o entendimento e a reconstrução desse mundo.

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Publicado

2022-04-28