Manejo vegetal e histórias de vida: tempos entrelaçados nas margens do rio Xingu
Resumo
"A gente veio do Pará”, destacam os Yudja mais velhos que atualmente vivem ao norte do Território Indígena do Xingu. Antigos habitantes das ilhas do baixo e médio rio Xingu, os Yudja tiveram seu território invadido pelos karai a partir do século XVII. Após conflitos com seringueiros e outros povos, se dividiram em dois grupos. Um deles empreendeu uma longa migração subindo o curso do rio Xingu à remo até se estabelecer ao sul da Amazônia. Nas últimas três décadas, as monoculturas de capim, soja e milho que engendram mercadorias circuladas em escalas nacional e transcontinental dizimaram as florestas no Mato Grosso. Esse projeto de escalabilidade colocado em marcha pelo agronegócio global tem causado impactos como o aumento da temperatura regional, alteração no ciclo hidrológico e incêndios florestais nunca antes registrados. Nesse contexto de afronta contínua aos seus mundos, apresentarei como as atividades de extrativismo de plantas estão meticulosamente implicadas na produção e reconstituição dos modos yudja de conhecer. Derrubar árvores de kadïka para produzir cauim conecta as florestas às roças, aldeias e casas. Cortar ramos de tĩtĩ e kῗ’ï para fazer flautas mobiliza negociações entre humanos e espíritos. Assim, pretendo analisar como o mundo Yudja que emerge a partir de tais práticas em florestas cercadas de latifúndios e vistas do rio relaciona-se com o deslocamento pelo território e a Ecologia para pensar possíveis arranjos de vida nas ruínas do desmatamento.