Entre laudos e feitiços: o resgate memorial da vida religiosa no Rio de Janeiro do século XX
Resumo
Com a transferência do Acervo Nosso Sagrado do Museu da Polícia para o Museu da República, novas possibilidades de investigações antropológicas surgiram no campo de pesquisas científicas sobre as religiosidades brasileiras. Composto por objetos sagrados e ritualísticos, apreendidos em batidas policiais a terreiros do final do século XIX à metade do século XX, a coleção foi a primeira a ser tombada pelo Sphan no ano de 1938 sob o nome “Coleção Museu de Magia Negra”. Após a retomada das peças sagradas por lideranças afro-religiosas, iniciou-se um processo de reconstruções simbólicas, históricas e patrimoniais do acervo no qual os inquéritos policiais referentes às apreensões religiosas denotam a construção de um conhecimento científico acerca da noção de feitiçaria. Diante deste material, o presente estudo propõe a investigação dos laudos das perícias criminais realizados pelo Gabinete de Pesquisas Científicas durante o período de repressão religiosa a fim de analisar a construção de argumentos jurídicos que justificaram a apreensão dos objetos ritualísticos. Pretende-se ainda examinar os tempos históricos que atravessam as peças sagradas e como eles são encruzilhados pelo Acervo Nosso Sagrado, assim, objetiva-se compreender como as classificações dos objetos ritualísticos enquanto evidências criminais foram retomadas e reelaboradas no contexto contemporâneo.