Marimba, Memória e Vida: A Congada como Estratégia Coletiva na Era da Rodovia Rio-Santos
Resumo
O trabalho examina disputas territoriais, políticas e simbólicas em torno da Congada do Bairro São Francisco, em São Sebastião/SP, desde 1970, tendo como pano de fundo a turistificação do litoral norte paulista e os reordenamentos urbanos impulsionados pela construção da rodovia Rio-Santos. Manifestação caiçara enraizada na Festa de São Benedito, a Congada mobiliza corpo e memória como forma coletiva de produção do território — não como resistência idealizada, mas como organização concreta da vida diante da captura institucional e da expropriação fundiária. A partir da trajetória de Casemiro Camilo dos Santos, liderança comunitária e marimbeiro, a análise articula história oral e bibliografia crítica para compreender os efeitos das políticas culturais que, sob o pretexto da preservação, desarticulam sentidos históricos e práticas de pertencimento. O trabalho dialoga com autoras e autores como Kilza Setti, Ilka Boaventura Leite, Fernanda Folster de Paula, David Harvey, Giovanni Cirino, Rodrigo Ribeiro de Castro e Adriana de Souza de Lima, entre outros, para evidenciar os mecanismos de folclorização e a reinvenção das formas coletivas de vida frente às promessas do capital. Fundado na memória ancestral e na vivência compartilhada com a comunidade, o trabalho ancora-se na observação participante, permitindo uma escuta situada das territorialidades que a Congada expressa e reafirmando o compromisso com formas de vida que organizam o território diante do avanço do capital.