Sobre corpos, substâncias, diagnósticos e vigilância. Uma etnografia de um objeto científico e de suas práticas
Resumo
Na década de 1960, pesquisadores da América Latina se reuniram em torno de uma rede de estudos com vistas à produção de dados epidemiológicos e pesquisas científicas sobre os defeitos e malformações congênitas na América do Sul. O ECLAMC (Estudo Colaborativo Latino-Americano de Malformações Congênitas), hoje presente em 7 países e 23 hospitais, tem construído desde então uma série de instrumentos científicos, como protocolos diagnósticos, atlas de imagens, cartilhas de formação, e orientado políticas de saúde no sentido da prevenção e vigilância da ocorrência de defeitos e anomalias congênitas. O objetivo deste trabalho é analisar a criação de uma rede de vigilância colaborativa mobilizando corpos, substâncias, diagnósticos e processos de vigilância, desde um ponto de vista sóciotécnico e pedagógico. Sociotécnico, pois permite a visualização dos problemas de alterações congênitas que não são objetivo de vigilância compulsória dos sistemas nacionais de saúde. Pedagógico, pois se mostra uma ferramenta de produção de conhecimentos científicos e formação de quadros intelectuais dentro de um estilo de pensamento específico. Minha hipótese é que, como uma objeto científico, no sentido dado por Lorraine Daston, o ECLAMC, seus atores e práticas podem ser entendidos no contexto dos dispositivos de governança reprodutiva e seus processos de regulação, monitoramento e controle de comportamentos reprodutivos e práticas populacionais.