"É proibido sonhar, então me deixa o direito de sambar": o samba de Batatinha como músicas para adiar o fim do mundo dos sujeitos negros
Resumo
O presente trabalho propõe uma análise das canções do sambista Batatinha como uma tecnologia sonora de resistência às condições coloniais impostas às populações negras pela lógica da plantation. Não se trata aqui da escravidão colonial dos séculos XV ao XIX, mas de refletir sobre como enfrentar o capitalismo racial que o desumaniza. Suas pulsões sonoras emergem como expressão de sua experimentação, enquanto homem negro, de outras formas de viver de maneira contracolonial. Como nos apresenta o trecho da música “Direito de Sambar”, que dá sentido ao título do presente trabalho, as composições de Batatinha estão diretamente associadas às encruzilhadas entre a vida e a morte social produzidas por uma sociedade pós-colonial e racializada. Busco estabelecer uma correlação entre os elementos estéticos, biográficos e sociais presentes nas composições desse artista e o cotidiano por ele vivenciado, enquanto homem negro. O intuito é discutir de que maneira esse contexto de colonialidade se tornou um importante instrumento na formação dos seus modos de composição musical, os quais expressam formas de reexistência das populações afrodiaspóricas. Assim, a partir dessas discussões, analiso como o samba de Batatinha opera, simultaneamente, como denúncia da “morte social” da população negra e como uma tecnologia que catalisa novas paisagens sonoras para adiar o fim do mundo.