Identidade e diferença como práticas de mundo: A reconstituição da identidade étnica Mura nas fronteiras do plantationceno
Resumo
O Povo Mura, autointitulado caboclo, vive à beira do rio e nele espelha suas sociabilidades, identidades, seu cosmos e sua temporalidade. Ao longo do século XVII, na recusa ao controle da plantation colonial, acolheram indígenas de diversas etnias, figurando como espaço étinico alternativo. Contrapunham o modelo civilizatório da agricultura e dos aldeamentos à ocupação livre e itinerante dos domínios da floresta amazônica. Apesar dos esforços de “incorporação” e “aculturação” – persistentes na política indigenista do século XX –, os Mura renovaram sua capacidade de reafirmar taticamente a coesão de sua identidade étnica. Nos anos 1980, passaram a ingressar crescentemente na economia de mercado e nas cidades. Com o vigor da criação de uma nova ordem democrática, mobilizaram o etnônimo Mura para agregar os interesses de uma ampla rede de sociabilidade que perpassa Terras Indígenas e centros urbanos. Entre 2008 e 2024, um megaempreendimento de mineração de potássio instaurou cisões no seio da identidade étnica Mura. Este trabalho parte da concepção de que essa identidade é construída por meio do contato e do contraste, da busca por aquilo que é produtivo para demarcar diferenças. Assim, investiga a constituição da identidade étnica Mura, como forma de mapear os embates cosmopolíticos e compreender como diferentes ontologias — Mura, Estado, agronegócio, potássio, floresta, desenvolvimento — se reconfiguram nas fronteiras plantationcênicas.