Entre o quilombo e o terreiro: alianças afro-diaspóricas na cidade e os modos de fazer território
Resumo
Este trabalho propõe refletir sobre os cruzamentos entre dois importantes territórios de resistência afro-diaspórica localizados na regional leste de Belo Horizonte: o Kilombo Família Souza, no bairro Santa Tereza, e o Ilê Asé Sópónnòn, terreiro de candomblé da nação ketu-nagô situado no bairro Paraíso. Apesar de distintos em sua organização e fundamentos, o primeiro reconhecido como quilombo urbano e o segundo como casa de culto de matriz africana, compartilham práticas ancestrais que envolvem o cuidado com as folhas, o cultivo da terra e a realização de festas religiosas e culturais. A partir de uma escrita comprometida com a vivência no Ilê Asé Sópónnòn e com práticas acadêmicas comprometidas com modos de co-etnografar, buscamos compreender como quilombo e terreiro elaboram estratégias de resistência e reexistência, articulando espiritualidade, memória e cuidado com o território. As festas de São Cosme e Damião e a Festa Junina, celebradas pelo quilombo desde a década de 1940, e os xirês do Ilê, realizados desde os anos 1990, são analisadas como expressões da continuidade e reinvenção de tradições afro-brasileiras. Valorizando práticas cocriativas e alianças entre saberes tradicionais e acadêmicos, o texto propõe respostas ético-políticas aos desafios enfrentados por comunidades negras urbanas. Ao reconhecer vínculos geográficos, afetivos e ancestrais entre esses territórios, contribuímos para o debate sobre modos de pesquisar, resistir e existir em companhia.