Fricções regulatórias: notas etnográficas sobre conexões globais, regulamentação sanitária e o cuidado medicamentoso caseiro
Resumo
Substâncias químicas ganham o estatuto de bens terapêuticos quando alçam um registro sanitário. É comum que esforços de homogeneização e padronização acerca desse registro sejam pensados de forma a permitir que tecnologias médicas trafeguem sem muitos desafios entre os países. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), no Brasil, e o Food and Drug Administration (FDA), nos Estados Unidos da América, por exemplo, possuem acordos de confidencialidade de dados, que permitem o compartilhamento de informações comerciais confidenciais sobre medicamentos regulados, em diferentes fases de comercialização. Neste trabalho, descrevo, a partir dos antipsicóticos para o Transtorno do Espectro Autista (TEA), caso em que os esforços de globalização ganham outros contornos. Em diálogo com Anna Tsing (2004), procuro mapear a forma como as conexões globais e os fluxos de tecnologias ganham vida nas fricções, isto é, no encontro com o cotidiano. A partir de uma etnografia do cuidado medicamentoso com antipsicóticos para TEA, realizada com cuidadoras e pesquisadores, argumento que, na aspiração dos sonhos universais e globais de trânsito contínuo de mercadorias, residem as vicissitudes do cuidado caseiro. Descrevo etnograficamente as reverberações que os registros sanitários de medicamentos (ou a ausência deles) provocam no dia a dia do cuidado e como isso é negociado entre mercado farmacêutico, o Estado e o cuidado caseiro.