“Atender a los muertos”: notas sobre relacionalidades mais-que-humanas no interior de Cuba

Autores

  • Juliane Oliveira Nunes UFRJ

Resumo

No cenário de crise energética e do legado das plantations escravistas, esta pesquisa de doutorado em curso investiga as configurações familiares de afrodescendentes em Cuba. Apoiando-se no conceito de “relacionalidades” (Carsten, 2004), investigou-se como se ‘faz parentes’, com base em etnografia realizada entre novembro de 2023 e abril de 2025 em Perico, município rural fundado entre 1845 e 1850 para a produção açucareira e reconhecido como “un pueblo rico en culturas africanas”. Lá, famílias guardiãs de heranças como Gangá-Longobá, Regla Arará, Ifá cubano, Palo Monte e Santería, destacam a centralidade das relações com os mortos, especialmente através das ancestrais Florentina Zulueta (fundadora da “rama” Arará) e Florinda Diago (Gangá-Longobá). Conceitos êmicos como “rama”, “bambases” e “casa” organizam seus modos de compor vínculos, materializados em práticas descritas como “atender a los muertos” (alimentá-los, reverenciá-los, executar seus pedidos, ouvir seus conselhos etc.). Com efeito, propõe-se aqui pensar ‘relacionalidades com os mortos’ como objeto de análise para examinar como os conceitos acima citados operacionalizam a (des)feitura de laços, tensionando fronteiras entre noções tradicionais de religião e parentesco (Bongianino, 2020), ao passo que dicotomias  natural/sobrenatural se diluem (Viveiros de Castro, 2008) na produção da vida comunitária e cotidiana, na qual espíritos, santos, animais, plantas, terras e águas emergem como partícipes nessas relações.

Publicado

2026-09-08

Edição

Seção

ST 25 | Modos de existência que brotam nas frestas: natureza e sobrenatureza em alianças insurgentes