Ser-rio entre as catástrofes do Mineraloceno
Resumo
Os desastres criados pela indústria extrativa-mineral podem mobilizar uma extensa e complexa trama composta por seres humanos e outros viventes, cujas vidas moldam e são moldadas com e pelos rios. A partir de uma abordagem multiespécie, neste texto procuro descrever e refletir sobre ligações sensíveis possíveis entre sujeitos diversos e o rio Gualaxo do Norte que foi severamente atingido em 2015 pela lama de rejeitos oriunda da barragem de Fundão, de propriedade das mineradoras Samarco, Vale e BHP Billiton. Entrelaço narrativas sobre episódios que vivenciei enquanto assessor técnico às vítimas do crime em Mariana, obras (áudio)visuais, cartografias e arquivos. Ao combinar tais práticas de aprendizagem, é possível observar outras socio-espacialidades que se constituem sobre a memória e a história da mineração neste território – da colonial à neoextrativista - e que excedem os próprios limites físicos em torno do curso d’água – expandido para o Atlântico Sul. Agências múltiplas deste ser-rio, diante das incessantes catástrofes da mineração, põem em perspectiva uma outra política de visibilidade sobre sujeitos outros-que-humanos apartados das ações de reparação, através da qual a terra incógnita do futuro pode ser imaginada não a partir de um desejo projetivo e controlador que vislumbre o recentramento do homem e a reestruturação do poder, mas de mundos habitados por outras “gentes” enquanto força capaz de liberar o mundo por vir das ruínas do presente.