O que as respostas dos organismos podem nos dizer sobre contaminação/reparação?Uma reflexão sobre como recalibrar as ferramentas da antropologia para nosequiparmos ao estudo de paisagens arruinadas.
Resumo
A Antropologia tem sido convocada a olhar para o design não intencional das paisagens. Entre outras coisas, essa noção chama atenção para o descentramento do humano nas histórias que contamos. As histórias humanas seriam tão relevantes quanto as histórias não humanas: “é aqui que a curiosidade e a imaginação entram em jogo” (Tsing, 2023). Nos estudos voltados para impactos socioambientais e desastres ecológicos – isto é, o nosso mundo no Antropoceno –, o olhar para o design não intencional nos leva a histórias de perturbação em que humanos e não humanos são autores e vítimas. Em minha pesquisa de pós-doutorado, tomo como evento crítico o crime-desastre da Samarco, ocorrido em 2015 no município de Mariana (MG), o qual analiso a partir de estudos de ecotoxicidade das águas e do solo. Entre os levantamentos, um ponto chama minha atenção: a ação dos fungos micorrízicos arbusculares como agentes de melhoramento das condições físicas dos solos. Entendendo tal agência como “respostas” dos organismos às ecologias antropocêntricas, este trabalho tem como proposta apresentar o universo dos fungos micorrízicos e sua complexidade micelial na gestão tecnocientífica do meio ambiente. Como pensar com os fungos pode ser um modo de pensar as ecologias de distúrbio? Como a escala de perturbação, a materialidade dos ambientes vivos e seus organismos se intercalam com essas questões? O diálogo interdisciplinar e interespecífico impõe tanto limites quanto possibilidades nesse debate.