Corpos em tradução: performatividade de gênero para além de natureza e cultura
Resumo
Este trabalho tem como objetivo a ampliação da noção de performatividade de gênero, de modo a compreendê-la enquanto um processo contínuo realizado por agências humanas e nãohumanas, abarcando regimes de saber-poder, dispositivos tecnológicos e entidades orgânicas como os genes, hormônios e órgãos. A motivação desta discussão surge do contato que tive pesquisando grupos da comunidade virtual Redpill, que defendem uma concepção de sexualidade baseada em um forte determinismo biológico. Tal contato me fez perceber que é preciso articular as ciências da natureza de modo a contestar posicionamentos deterministas e promover um olhar mais dinâmico e plural sobre a materialidade dos corpos. A partir dessa perspectiva, promovo um diálogo entre os estudos sociais da ciência e a teoria queer, analisando como sexo e gênero são produzidos em redes sociotécnicas que articulam atores biológicos, semióticos e políticos. Busco compreender como as redes científicas estabilizam e contestam categorias de sexo e gênero em um mundo marcado pela produção biotecnológica da subjetividade e pela proliferação de agentes incapazes de serem enquadrados no dualismo moderno que separa radicalmente a natureza da cultura. Busco explorar as limitações de explicações dualistas e encontrar caminhos teóricos que abram portas para uma concepção mais integrada da relação entre corpos, gênero e processos de subjetivação.