Não se pode comprar o chão: garimpo urbano, resíduos e disputas infraestruturais na Feira da Glória (RJ)
Resumo
Este trabalho etnográfico investiga os efeitos sociopolíticos da gentrificação e da proibição de um dos muitos “circuitos inferiores da economia urbana” (Santos, 1979) no Rio de Janeiro: o “shopping- chão” da Feira Livre da Glória. Durante um ano, acompanhamos garimpeiros urbanos que coletam, selecionam e revendem objetos descartados, observando “a vida ‘pós-descarte’ dos objetos” (Lima, 2021) e os corpos envolvidos nessas práticas, frequentemente associados à sujeira, perigo e desordem (Douglas, 2014). O garimpo urbano reconfigura infraestruturas de limpeza e disputa o direito à cidade, na medida em que “vidas baratas são produzidas pelo aparato da ordem social moderna” (Patel & Moore, 2017). O chão da feira torna-se um campo de disputa entre políticas de revitalização e práticas populares de reutilização. Em 2024, mapeamos 81 expositores organizados por categorias flexíveis e analisamos como esse mercado paralelo articula saberes locais, redes de valor e relações afetivas. Acompanhamos a mobilização de um grupo de mulheres — em sua maioria negras, mães e trabalhadoras — que, em resistência, organizaram passeatas, criaram redes sociais e estratégias contra o “choque de ordem” da prefeitura. Ao tratar os descartes como matéria em mobilidade, refletimos sobre a tecnopolítica das infraestruturas urbanas e os impactos da “violência lenta” (Nixon, 2011), social e ambiental, em mundos por vir.