Pirofilia espectral: relações sensoriais mais-que-humanas ao fogo

Autores

  • Kuai Shen Auson Ortega Universidade de Lisboa

Resumo

A energia do fogo é indisciplinada. Num planeta rico em oxigénio, de temperaturas crescentes e mudanças climáticas turbulentas, os fogos surgem subitamente de forma biótica e abiótica por meios humanos ou não humanos. As energias dos incêndios florestais multiplicam-se num multiverso de padrões imprevisíveis, induzindo mudanças nas terras em todas as dimensões sociais, culturais e ecológicas. Particularmente em locais propensos a incêndios, como a Portugal e, nomeadamente, o Brasil, os incêndios estão enredados em histórias coloniais de recuperação. Essas narrativas são avaliadas e geridas através de visões e epistemologias hegemónicas que desvalorizam práticas fundamentadas e imaginários indígenas.
Para promover discursos mais-que-humanos e práticas descoloniais nos estudos críticos do fogo, tem de ocorrer uma mudança de paradigma. O fogo, não como devastação, mas como energia intra-ativa (Barad 2014) mas-que-humana (Pyne 2021), deve ser revalidado através de uma pluralidad sensorial. Espécies pirofilicas detectam o espectro eletromagnético do fogo através das lentes e sentidos animais. Inspirado pela percepção sensorial dos animais resistentes ao fogo, este artigo elabora uma relação diferente com as energias do fogo, que procura alinhar-se com as ontologias enraizadas do povo Xerente no Cerrado, por meio da reutilização de métodos de visão computacional e ecoacústica.

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Publicado

2026-09-08

Edição

Seção

ST 34 | Tecnodiversidade, criações de mundo e recriações entre seres