Infraestruturas de IA, territórios soberanos e justiça energética: assetização, logística e mundificação sociotécnica

Autores

  • Lorena Lucas Regattieri UFRJ

Resumo

 Este trabalho investiga as imbricações entre infraestruturas energéticas e sistemas de inteligência artificial (IA) no Brasil, com foco na lógica de conversão que transforma a terra, a energia e os modos de vida em unidades de cálculo. A hipótese central é que os contratos de autoprodução energética instituem uma ontologia infraestrutural que integra sistemas de IA a circuitos racializados de abstração territorial e desarticulação cosmológica. Operando por meio de arranjos jurídicos e dispositivos financeiros, esses contratos reorganizam territórios tradicionais como ativos logísticos a serviço das exigências operacionais da computação intensiva. A terra, viva e relacional, é convertida em substrato técnico, subordinada à previsibilidade e à eficiência. Esse regime não constitui uma ruptura, mas a continuidade de uma gramática político-jurídica que historicamente desloca, silencia e instrumentaliza povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais. Em sintonia com a noção de logisticalidade (Moten e Harney), e com a crítica ao dispositivo racial formulada por Denise Ferreira da Silva, o trabalho propõe compreender como a governança energética dos sistemas de IA se apoia na conversão da diferença em disponibilidade, instaurando uma presença operacional que esvazia o território de suas cosmologias e formas de mundo.

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Publicado

2026-09-08

Edição

Seção

ST 03 | Antropologia das inteligências artificiais: materialidades, práticas e imaginários sociotécnicos