Da Vassoura ao Cadáver: Quem mete a mão na massa no Instituto Médico Legal Nina Rodrigues?

Autores

  • Amanda Gonçalves Prado Quaresma UFF

Resumo

A partir de uma etnografia realizada no Instituto Médico Legal Nina Rodrigues (IMLNR), em Salvador/BA, este trabalho analisa a produção de laudos periciais como artefatos atravessados por dinâmicas de poder, desigualdade e desumanização. O foco recai sobre os trabalhadores terceirizados da limpeza, em desvio de função, que “metem a mão na massa” nos corpos necropsiados, apesar de os laudos serem assinados por peritos médicos concursados. A partir da observação participante e da análise de inquéritos civis do Ministério Público do Trabalho, evidencio como a produção da prova pericial — tomada como verdade técnico-científica — se apoia no trabalho invisibilizado de trabalhadores negros precarizados, que lidam cotidianamente com cadáveres racializados, muitas vezes reflexo de si próprios. O artigo tensiona os limites entre o saber autorizado e o saber encarnado, e propõe refletir sobre os efeitos ético-políticos e jurídicoprobatórios da terceirização, além do racismo institucional na construção dos laudos periciais. Em um cenário de genocídio negro e escassez de concursos públicos, os corpos mortos e vivos se entrelaçam como matéria-prima de uma verdade forense que se pretende neutra, mas é sustentada pela desigualdade. Trata-se, assim, de pensar antropologicamente com os laudos: não apenas como documentos, mas como artefatos produzidos no cruzamento entre violência estrutural, silêncio institucional e práticas cotidianas de resistência. 

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Publicado

2026-09-08