Espectros do mangue: degradação ambiental e invisibilidade em tempos de crise
Resumo
Às margens do rio Piraquê-açu, no município de Aracruz, no Espírito Santo, vivem ribeirinhos e povos indígenas Tupiniquim e Guarani, que, ao lado da Mata Atlântica, do manguezal e de sua foz - que se encontra com o Oceano Atlântico -, formam uma rica biodiversidade de ecossistemas naturais, fundamentais na produção e reprodução material e simbólica dos coletivos humanos. No entanto, desde a década de 1960 essa paisagem passa a sofrer com os impactos causados pela chegada da monocultura de eucalipto da Aracruz Celulose S/A, e a instalação de indústrias, dentre outras, ligadas à cadeia produtiva da celulose, bem como o complexo logístico da região, composto por grandes portos e estaleiros. E como se já não bastassem tais impactos, esse cenário foi agravado em decorrência do crime ambiental da Samarco/Vale/BHP Billiton, com o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (MG), em novembro de 2015, já que, após a lama de rejeitos de minério atingir o rio Doce e percorrer cerca de 880 km, alcançou o oceano Atlântico, através de sua foz, no município de Linhares (ES), espalhando-se pelo litoral capixaba, atingindo, dentre outros, o rio Piraquê-açu. Nessa paisagem, pretendo discutir sobre a situação dos ribeirinhos do rio Piraquê-açu, impactados desde novembro de 2015 pelo crime ambiental da Samarco/Vale/BHP Billiton, mas ainda invisibilizados no processo de reparação.