Escutar os rios como tecnologias da demora
Resumo
Nossa proposta parte do modo de conviver com os rios, baseado em narrativas de memória de ribeirinhos da região do Médio Rio Solimões para entender tais comportamentos como tecnologias da demora. Quando falamos de tecnologias da demora, pensamos em técnicas/tecnologias como maneiras de conviver com a Terra (Abya Yala) no tempo ou nos tempos dela. Nos vários tempos dos seres não-humanos, que funcionam em outras temporalidades. Ouvir as narrativas dos rios e sobre os rios significa reconhecer a identidade e a existência daquele que narra, seja humano ou não-humano. Quando ouvimos e reconhecemos tais narrativas estamos reconhecendo o modo de vida das pessoas, o comportamento dos seres nãohumanos, a maneira como as populações lidam com os rios. Quando paramos para ouvir os rios, experimentamos a demora. Essa espera é também uma forma de fazer memória; afinal, ela nada mais é do que a demora no tempo, ou do tempo. Apresentamos aqui as narrativas das populações ribeirinhas do Médio Solimões como tecnologias da demora criadas com os rios, paranãs e igapós da região. Criamos ilustrações baseadas nas memórias, para instigar a escuta com o rio. Trabalhar a partir das tecnologias da demora significa estarmos abertos para outras e novas afecções, para sensibilidades que não conhecemos. Para sermos capazes de nos individuarmos junto com a própria Terra, e com as tecnologias que essas populações criam, em temporalidades que respeitam essas afecções e suas demoras.