Terras caídas, corpos caídos: cuidado, adoecimento e cura em São Paulo de Olivença/AM
Resumo
Este trabalho descreve etnograficamente experiências cotidianas de cuidado, adoecimento e cura em São Paulo de Olivença/AM, tomando como ponto de partida a convivência com a família Abreu e interlocutores locais, sobretudo rezadores e rezadeiras. A pesquisa busca articular três dimensões interconectadas — corpo, território e comunidade — a partir de transformações nos modos de viver e ocupar a cidade, especialmente diante do fenômeno das terras caídas, que destrói espaços de memória, festa e moradia. A crise ambiental local é interpretada tanto por narrativas míticas — como as da Cobra Grande ou da maldição de um padre — quanto por disputas cotidianas de territorialidade e pertencimento, como mostram os conflitos em torno da ocupação de bairros e o medo da perda de vínculos comunitários. Inspirado na antropologia simétrica de Latour e nos debates sobre multiespécies (Tsing, Kohn), o texto recusa uma oposição simplista entre agentes humanos e não-humanos, destacando como rezadores, encantados, espíritos e rios integram redes de cuidado e ameaça. Entre a instabilidade das margens ribeirinhas e os deslocamentos dos moradores, emerge a figura da borboleta azul — símbolo da cidade e metáfora para um tempo e espaço em transformação — como chave para compreender como a saúde da terra, do corpo e da coletividade se entrelaçam, em um cenário marcado por conflitos silenciosos, degradação ambiental e reinvenções da vida ribeirinha.