O sentimento de si como arte de notar: fabulações corporais do holobionte

Autores

  • Renata de Oliveira Ramos PUCSP

Resumo

Assistimos ao colapso do imaginário moderno sobre o corpo como entidade biologicamente individualizada e separada do mundo. Contra esse modelo hegemônico, os estudos do microbioma humano sugerem que somos holobiontes: associações simbióticas entre hospedeiro e micro-organismos; assembleias interespecíficas em negociação com o ambiente. Esse deslocamento epistemológico implica também uma transformação sensível: é necessário um  aparato simbólico e imaginativo que sustente o paradigma de um corpo povoado, poroso, em escuta e co-presença. Nesta pesquisa, busco perceber o entrecruzamento entre os estudos do microbioma humano e práticas artísticas contemporâneas. Dialogo com obras de Flavia Pinheiro, Sonja Bäumel, Joana Ricou e Anna Dumitriu, vistas como dispositivos de desestabilização paradigmática ao convocarem práticas de escuta e fabulação que reconfiguram o sensível. Essas obras cultivam imaginários corporais baseados no contágio e proliferação como potência, não como ameaça, ressignificando a relação com o invisível que nos habita. Se o olhar foi o sentido privilegiado de determinação do real na modernidade, essas obras ativam outros sentidos e percepções. Metáforas bélicas que dominaram a medicina moderna cedem espaço a metáforas ecológicas, resgatando o corpo como território vivo, poroso, em constante coemergência com o mundo. Trata-se de propor um corpo à altura do Antropoceno, que traz, como potência, outra política do cuidado de si: corpo-floresta em cuidado e expansão. 

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Publicado

2026-09-08