Cogumelos para comer e para pensar: indo além da alimentação num projeto de inovação na fungicultura
Resumo
O quê se entende por “cogumelos”? No Brasil, frequentemente, se entende como “cogumelos alucinógenos”, particularmente da espécie Psilocybe cubensis. No interior de Portugal ouve-se “míscaros”, “frades” e “boletos”. Na antropologia pensamos “Anna Tsing”, na contracultura “Terence McKenna” e na biologia talvez “Paul Stamets”. Neste trabalho, apresento um projeto de inovação no cultivo de cogumelos, estabelecido por um brasileiro no interior de Portugal, na “vila do cogumelo” da região. Este projeto acabou fracassando, com pequenos malogros se acumulando. Cada um destes momentos ensaiava um tipo de esperança, uma renovação que, finalmente, ofereceria chances de uma retomada. Central foi a polissemia dos “cogumelos”, cujo sentido era modificado, restringido e, principalmente, expandido, conforme novos aliados se juntavam ao projeto. Ali, cogumelos como alimento, que eram os protagonistas da forma inicial do projeto, foram apenas um ingrediente entre outros nesta sopa controversa que são os fungos e, ao passo em que se perdia terreno na vila, outros usos, acepções e agências dos fungos entraram em destaque. Por fim, parafraseando Lévi-Strauss, porém, num sentido diferente do dado por ele, mostro como cogumelos não são bons apenas para comer, mas também para pensar. Pensando em fungos, meus interlocutores foram além do cogumelo alimentício, desenvolvendo uma série de produtos e, inclusive, deixando-o para trás, pelo menos em sua roupagem usual