Antropologia com incapturáveis: sobre a humanidade e a espitirualidade relacionais na ontologia dos candomblés e (no) além.
Resumo
Desde uma etnografia cuja realização foi proposta pelo espírito do fundador de um terreiro de candomblé em São Paulo, este trabalho parte, por isso, da crítica geral aos clássicos divisores antropológicos – natureza/cultura, realidade/representação, conceitos/crenças etc. – e do incômodo com as suas assimetrias, que, todavia denunciadas, ainda caracterizam o sistema hegemônico de produção dos conhecimentos. Em particular, na seara do interesse pelas religiões de matriz africana no Brasil, presume-se que tais desequilíbrios se expressem sob deslegitimação da agência primordial e autônoma de seres e fluxos de forças centrais nesses cosmos – como as dos ancestres e deidades. Após essa apreciação, de cunho mais teórico, o texto aposta na possibilidade de reavaliar a antropologia majoritária a partir de descrições etnográficas – incluídas falas registradas entre os espíritos – que apontam para o caráter instável da posição “humana” no mundo dos candomblecistas. No limite, as descrições sugerem que, no terreiro etnografado, a humanidade e, por extensão, a natureza, bem como o status sobrenatural de certos entes, ao invés de propriedades estanques e com distintos graus de legitimidade, sejam perspectivas advindas de princípios cosmo-ontológicos ligados, por sua vez, a diferenciações demiúrgicas incessantes, distribuíveis e situacionais. Nesses termos, vislumbra-se aqui uma antropologia que conte com espíritos, e o faça sob toda a potencialidade fugidia das forças incapturáveis.