Eu quero ser semeado: multiplicidade religiosa entre congado, candomblé e o desastre socio-técnico de Brumadinho

Autores

  • Bianca Zacarias França UFMG

Resumo

No dia 25 de janeiro de 2019, ocorreu o rompimento da barragem da Vale S.A. em Brumadinho (MG), causando 272 mortes e afetando 26 municípios. Além dos crimes ambientais e contra a vida, houve danos profundos às populações atingidas, especialmente aos Povos e Comunidades de Tradição Religiosa Ancestral de Matriz Africana (PCTRAMA), quilombolas, indígenas e ciganos. Minha tese busca investigar, etnograficamente, como se articula a multiplicidade religiosa entre o congado e o candomblé nesse contexto de desastre, em especial no Ilê Axé Palácio de Oxóssi e na Irmandade de Moçambique Nossa Senhora do Rosário e São João Batista de Igarapé. A pesquisa começou em 2022, quando atuei como antropóloga no IDAFRO, identificando danos socioculturais e fortalecendo a matriz de danos dos 41 territórios tradicionais afetados. Inspirada por autores como Achille Mbembe, Zhouri e Valêncio, e por lideranças como Pai Marambaia, a investigação evidencia que o racismo ambiental e a necropolítica, que decidem quem deve morrer, também ampliam a categoria de “atingidos” para incluir orixás, encantados e entidades, pois, como nos diz o ditado candomblecista, “matou a planta, matou o Orixá”. Conclui-se que a justiça climática só será possível quando incluir os povos de terreiro e comunidades tradicionais na agenda política, reconhecendo seus saberes e práticas ancestrais como essenciais para enfrentar os conflitos climáticos e territoriais contemporâneos. 

Publicado

2026-09-08