Os caminhos dos bichos: uma profusão de histórias perigosas
Resumo
Baseado em trabalho etnográfico realizado em uma comunidade quilombola no norte capixaba (Conceição da Barra) no ano de 2024, o trabalho se debruça sobre histórias centradas nas trajetórias dos “bichos” — termo nativo que designa pessoas, animais, espíritos e outros seres mais-que-humanos. Através dessas histórias, o que se delineia é uma cartografia do perigo: são relatos que tematizam o risco de ter o corpo invadido e atravessado por forças e circunstâncias das mais diversas – "invasores” não-quilombolas que loteiam pedaços de terra nas vizinhanças, o imprensamento promovido pela monocultura de eucalipto que circunda as casas e os encostos e espíritos cachaceiros que podem afligir qualquer desavisado apoiado em um balcão de bar. No quintal de uma tia, as crianças aprendem a caminhar – pelo território e “para fora” – ouvindo as histórias daqueles que “viraram bicho”. Por vezes uma metáfora, uma acusação ou o reconhecimento de uma presença, os “bichos” emergem nas histórias como uma virtualidade perigosa, contra-exemplos instrutivos para se seguir um rumo seguro e orientar modos possíveis de se proteger diante dos perigos que correm pela estrada. Assim, pretende-se pensar o que essas histórias contam sobre a porosidade dos mundos e a instabilidade a que estão submetidos os corpos e seus caminhos.