Entre o Corpo Vivido e o Corpo Patologizado: Uma Fenomenologia da Consciência Corporal na Experiência da Hospitalização
Resumo
Qual a percepção do indivíduo adoecido sobre o próprio corpo? E como a hospitalização interrompe/potencializa sua agência? Este trabalho reflete sobre a consciência corpórea a partir da fenomenologia de Merleau-Ponty(1999), compreendendo o corpo não como mero suporte anatômico, mas como expressão encarnada do ser-no-mundo, em sua intercorporalidade e dimensão existencial. Porém, observa-se ainda hoje, um reducionismo ao corpo-objeto, sob olhar técnico e fragmentado, que desarmoniza e condiciona a experiência corpórea à patologia, nos moldes do modelo biomédico. Dialogando com Kabengele Munanga(1999), problematiza-se como racionalização e colonialidade operam na construção social de corpos mais facilmente “patologizáveis”, silenciados e desumanizados no contexto hospitalar. Como afirma Canguilhem(1995), ao citar René Leriche, a saúde é “a vida no silêncio dos órgãos”; é na ruptura desse silêncio, na irrupção da dor — voz da doença corpórea — que o corpo antes “invisibilizado”, relegado, negligenciado se revela a um sujeito que antes não percebia sua potência e condição encarnada, pois só há vida na dependência de um corpo exposto e posto no mundo. Propomos repensar o cuidado como prática ética, relacional e descolonial, que negue a reprodução de ideias, técnicas e práticas cristalizadas e reconheça o corpo hospitalizado como território simbólico, histórico, afetivo, relacional e que se expressa, emaranhado nas ambiências, vivências e paisagens que experimenta no/com o mundo.