A parceria criativa com o eucalipto e a produção de um “nós” transespecífico
Resumo
Neste paper discuto o trabalho de pesquisa e criação da artista colombiana aniara rodado e a sua proposta de parceria criativa com o Eucalyptus globulus que dá vazão a uma “dança vegetal” e a um “jardim do fim do mundo”. O eucalipto cultivado hoje em mais de 90 países, como bem se sabe, é um produto colonial que foi alçado da condição de espécie endêmica da Austrália à condição de matéria prima ligada à produção de lenha para aquecimento, de celulose para fins industriais, de florestas de crédito de carbono e de insumo para pesquisa farmacêutica. Analisando a obra Transmutation de base - Alien/migration (2016), e atentando para uma série de encontros humanos e mais-que humanos que permitiram sua instauração, bem como o surgimento da ideia de colaboração transespecífica, discuto o trabalho de longo prazo da artista com a espécie vegetal tomada como um sujeito subordinado do qual se deve “falar bem”. Analisando também a minha entrada nessa empreitada colaborativa a partir da realização de minha pesquisa de doutorado em antropologia - empreitada esta que passa a ser chamada por nós de “parceria sulsul-sul" , argumento que “falar bem do eucalipto” está ligado a uma ética de sujeitos subordinados e a um esforço de elaboração de uma história mais que humana da migração de espécies vegetais, de uma história que deliberadamente aproxima as violências coloniais que estão na base da “migração do eucalipto” com os inúmeros problemas sociais e ecológicos associados ao seu cultivo hoje.