Nem Horizontal, Nem Vertical: A complexidade da incorporação de “novas” epistemes no campo de ensino
Resumo
Este trabalho objetiva problematizar o encontro de saberes em sua aplicação concreta no cotidiano do ensino. Não considero que a proposta consiga substituir um “verticalismo hierarquizante” por um “horizontalismo democratizante”, mas sim acolher melhor essas duas formas de relação no mesmo espaço. Minha crítica se concentra no fato de que, ocasionalmente, obliteramos irrefletidamente outras epistemes que buscamos incorporar. Para superar essa obliteração, não basta simplesmente acolher esses “saberes outros”; é fundamental reconhecê-los efetivamente. Para ilustrar, trago o exemplo de uma banca de defesa de um estudante indígena. Durante a avaliação, uma integrante sugeriu alterar a frase: “A doença pegou aquele homem” para: “O homem pegou aquela doença”, buscando maior coesão acadêmica. Contudo, essa inversão apaga uma dimensão importante: a agência conferida à doença. Na formulação original, é a doença que age sobre o homem. O exemplo revela que não basta incorporar sujeitos diversos; é imprescindível reconhecer suas cosmologias e epistemes. Quando nos alinhamos automaticamente ao “discurso oficial”, seja pelas normas do português ou pelas convenções acadêmicas, acabamos por obliterar mundos que se expressam de maneiras distintas. Assim, mesmo na intenção de incluir novos saberes, corremos o risco de suprimir, mesmo que de forma sutil, a vastidão de significados que uma “simples correção” pode carregar.