A Escrita de um "Nós" a partir de Nós
Resumo
O poder da produção de conhecimento e de determinar quem são os “Outros”, por muito tempo ficou detido a um “Nós” particular, branco, masculino-heteronormativo e europeu, um estatuto que foi auto-concedido, e que a partir de si definiram-se como referência da condição de humanidade. Assim, estavam também, criando propositalmente, a desumanização desses “Outros”. A vista disso, busco com este trabalho pensar uma forma feminino-negra-coletiva de construir antropologia, a partir de Nós, que fomos estigmatizadas como “Outros”. Compreendo que neste processo subvertemos esse estatuto e nos construímos como um legítimo “Nós” a partir de Nós. Proponho, então, refletir sobre como mulheres negras tecem este olhar e material contrahegemônico na produção científica e, também, explorar como a partir disso podemos construir novas formas de vidas para nós, que vão além da colonização branca. Esta análise parte das experiências compartilhadas em entrevistas de pesquisa com minhas três colaboradoras, somadas às minhas próprias vivências. Com um debate alicerçado na Epistemologia Feminista Negra (COLLINS, 2019) e no conceito do escrevivências (EVARISTO, 2020), discuto nesse trabalho a produção de saberes e as novas narrativas contadas por esse “Nós”, enquanto mulheres negras. Busco contribuir com a diversificação da disciplina e com a ressignificação humanizada das nossas identidades, através do entrelaçamento das nossas experiências e da escrita, de um eu que reverbera em um Nós.