Ide em comunhão: caminhadas na mata do quilombo de Croatá, em Januária, no Gerais

Autores

  • Gleydson Vicente Mota UFMG

Resumo

No Croatá, quilombo ribeirinho ao Rio São Francisco, em Januária, no Gerais, o território é moldado pelas águas. O correr do rio dita não somente a paisagem, mas a organização social e a mobilidade dos viventes. Quando o rio está na baixa, é tempo de pescar. No tempo das águas é intenso em mobilidade. Quando as águas recuam e deixam o lameiro, é o momento de plantar, de cuidar da vazante. Este correr da vida diz das pessoas humanas, mas também impulsionam a circulação dos animais, a germinação de frutíferas e a regeneração da vegetação. Território em disputa, por décadas sofreu com invasões e grilagens por parte de fazendeiros, que promoveram o desmatamento para formação de pastagens. Em resposta, a comunidade tem mobilizado processos de retomada: reconduzindo áreas degradadas ao uso coletivo, recuperando a vegetação nativa e reafirmando sua permanência. Foi nesse contexto que, a convite do Sr. Arnaldo e Enedina, lideranças deste território, realizamos caminhadas pela mata e seus caminhos de rio. O convite surgiu do carinho mútuo pelas  plantas. Caminhamos para coletar folhas e cascas de árvores que comporiam uma prensa botânica comunitária. A caminhada foi também um gesto de pesquisa, entendendo o caminhar como modo de escuta, de presença e de construção de sentido. É nesse deslocamento que o conhecimento se faz, relacional e partilhado, nos rastros das águas, sentindo o espírito da mata. Este texto apresenta as impressões do caminhar compartilhado na mata do Croatá. 

Publicado

2026-09-08

Edição

Seção

ST 26 | Modos de fazer, modos de lutar: cocriações em correspondência com quilombolas, indígenas e comunidades de terreiros