Cosmogramas africanos: cartografias de reexistência
Resumo
Diante das estratégias de apagamento impostas pelo colonialismo, a cultura diaspórica, como a cultura de terreiro, emerge como forma de resistência e reconstrução coletiva. A diáspora marca uma perda de referências identitárias e de mundo, sendo a coletividade o caminho para reconstituí-las. Nesse processo, a cultura não se apoia no indivíduo, mas na força do comum. O chão dessas experiências — feito de memórias, rituais e práticas — conecta esse chão que pisamos com aqueles chãos do outro lado do Atlântico. Como afirma Luiz Rufino, trata-se de uma pedagogia das encruzilhadas, em que saberes são vividos, cantados, dançados e partilhados. O terreiro, entendido como forma atualizada do quilombo, é um espaço de recriação do viver em comum, articulando alianças, cuidado e resistência nas práticas coletivas e na relação com a t(T)erra. Os cosmogramas africanos, como os pontos riscados, os vèvè do vodu haitiano e as firmas do Palo Monte em Cuba, também operam como cartografias capazes de refazer outros chãos. Conectam a ancestralidade e o tempo presente e futuro, o material e espiritual, estruturam ritos e gestos cotidianos como formas de reexistência que encarnam uma ética de cuidado, relação e presença. Reunir essas práticas na pesquisa é um gesto ético e político. O terreiro como quilombo, os cosmogramas como mapas de reexistência e a escrita como aliança nos convocam a estar com — e não apenas falar sobre — aqueles que resistem à devastação colonial.