Sementes de outros futuros: práticas de cuidado e arranjos cosmopolíticos na construção social do bem nascer
Resumo
Em um país onde o nascimento se tornou um campo de violações e disputas, a assistência ao parto ainda opera sob lógicas coloniais e racistas. É urgente pensar em outros modos de cuidar. Este trabalho propõe um deslocamento: pensar em saberes como sementes, assumindo o cuidado como forma de semeadura de mundos. Com inspiração etnográfica e feminista, aproxima-se das demandas de direito das parteiras tradicionais, refletindo: como criar espaços de coexistência entre o paradigma biomédico e os arranjos cosmopolíticos do cuidado tradicional? Inspirar-se nas sementes é insistir na dimensão afetiva do cuidado: em alianças com um mundo vivo. Nos atentamos às redes de raízes entrelaçadas no solo que lembram que a política do nascimento é também política de terra, memória e resistência. Pensar o parto é pensar o mundo – e seus possíveis renascimentos. Assim, somos convocadas a abrir caminhos para que diferentes saberes coexistam. Ver o nascimento como disputa implica reconhecer que cada corpo carrega um enraizamento político e epistêmico. As práticas de cuidado gestadas nos territórios são formas legítimas de conhecimento, ancoradas em cosmologias onde o nascer está ligado a uma rede viva de relações com a terra, a água, as plantas e as comunidades. Trata-se de legitimar saberes não como resquícios, mas como potências de futuros possíveis. Em tempos de colapso, preservar as sementes é projetar futuros e cultivar alianças para o reflorestamento dos mundos.