Territorialidades sagradas em uma metrópole: dinâmicas ecológicas do povo de santo em Belo Horizonte
Resumo
Este artigo propõe uma reflexão sobre a percepção e o enfrentamento do racismo por parte de grupos religiosos afrodiaspóricos na contemporaneidade, com base em resultados preliminares da pesquisa “Cartografia e Ecologia das Práticas Religiosas Afrodiaspóricas em Belo Horizonte”. A investigação tem promovido um diálogo fecundo com diferentes lideranças de terreiros situados em áreas periféricas da capital mineira, buscando compreender como experiências de discriminação, dinâmicas urbanas e transformações ambientais afetam a presença e a prática dessas religiões no espaço urbano. A questão racial emerge como eixo central nas narrativas coletadas, revelando como o racismo estrutural molda cotidianamente as formas de ocupação territorial e de afirmação identitária das comunidades de terreiro. Ao mesmo tempo, evidencia-se a persistência histórica do chamado “povo de santo” na resistência, reinvenção e atualização de suas práticas, mesmo diante de pressões simbólicas, institucionais e materiais. Os dados indicam uma ampliação significativa do repertório religioso afrodiaspórico em Belo Horizonte nas últimas décadas, o que reforça a pertinência de se discutir como esses grupos têm negociado seus espaços de atuação e que estratégias – individuais e coletivas – vêm sendo mobilizadas no enfrentamento ao racismo. O artigo busca contribuir, pois, para o debate antropológico sobre religiosidades negras urbanas, territorialidades e formas contemporâneas de resistência étnico-racial.