“Santo Haldol®!”: etnografia do uso de psicoativos por pessoas internadas em uma enfermaria psiquiátrica masculina
Resumo
Neste trabalho, pretendo analisar etnograficamente os diversos usos (consumo e troca) de substâncias psicoativas por pessoas internadas em uma enfermaria psiquiátrica masculina. Na experiência de consumo narrada — especialmente de medicamentos psiquiátricos, café e cigarros —, a fronteira entre o uso medicamentoso (extensivo) e o não medicamentoso (intensivo) dessas substâncias é constantemente vazada (Vargas, 2008). Café e cigarros são utilizados pelos pacientes para conter os "efeitos colaterais" dos psicofármacos, numa espécie de uso terapêutico extraoficial dessas substâncias. Por vezes, os próprios medicamentos prescritos são comparados pelos pacientes a drogas ilegais ou a seus efeitos alucinógenos, explorando-se os limites entre uso recreativo e medicinal. Além dos efeitos obtidos por seu consumo, café e cigarros alimentam um sistema de trocas no cotidiano hospitalar, constituindo uma verdadeira economia entre os pacientes. Enquanto os psiquiatras mobilizam o consumo de psicotrópicos como uma forma positiva de transformação dos pacientes em "outras pessoas", para muitos deles, os psicofármacos os transformam em "robôs" ou "zumbis". Explorar as diferentes tensões envolvidas no uso de substâncias por pacientes de uma enfermaria masculina pode revelar os agenciamentos socioquímicos que as pessoas em situação de internação psiquiátrica encontram para modular seu próprio tratamento.