Crise ecológica na Amazônia: natureza e sobrenatureza entre os Rikbaktsa
Resumo
De que maneira os Rikbaktsa, população indígena de língua Macro-Jê do sudoeste amazônico, pensam a crise ecológica? Como as pessoas deste grupo relacionam natureza e sobrenatureza? Entre os Rikbaktsa, a atual escassez de tubérculos nas roças é atribuída tanto ao avanço das monoculturas de milho e soja na região – que reduzem o habitat dos porcos-do-mato, levando-os a consumir os alimentos plantados pelas famílias – quanto à ação de espíritos malfeitores. Segundo os velhos, os mamíferos que consomem os brotos de mandioca e batata doce das roças não são animais verdadeiros (babata), mas animais que, com a saúde enfraquecida por conta da fome, ficam vulneráveis à ofensiva dos mortos: os espíritos que penetram o corpo dos mamíferos são, contudo, bem específicos. Eles são, majoritariamente, os espectros terrestres dos seringueiros que, em meados do século XX, deram início à exploração da borracha na área indígena. A relação dos Rikbaktsa com os estrangeiros foi traumática e hoje se atualiza de modo a afetar a saúde corporal dos vivos – mais especificamente, a segurança alimentar deles. Na tentativa de superar esta crise com os mortos, as pessoas buscam se aliar aos espíritos ligados à vitalidade da floresta: os espíritos pai do mato (morebe) e pai do vento (zopoktsazo). A hipótese é que, por meio dessa aliança, os Rikbaktsa conseguem restaurar parcialmente o equilíbrio ontológico em um território afetado pelo extrativismo e pela monocultura.