A mata se levanta e a terra estremece: alianças com encantados no Parque Nacional da Chapada Diamantina

Autores

  • Paula Pfluger Zanardi UFSC

Resumo

Este trabalho acompanha a relação do jarê com a paisagem a partir de uma operação de fiscalização do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), em 2024, no Parque Nacional da Chapada Diamantina (BA), que resultou na destruição de um terreiro e na remoção de um assentamento de caboclo. O jarê é descrito como candomblé de caboclo (SENNA, 1998) por ser resultante do encontro das matrizes africanas com as entidades nativas da região, os espíritos descendentes de indígenas. Pretendo compreender como a ação do ICMBio desconsiderou os vínculos entre corpos, paisagem, espíritos e práticas de cuidado que sustentam os modos de vida das comunidades jarezeiras. Há uma invisibilização da violência do ato que está expressa no processo de reconstrução do terreiro colocado em curso pelo ICMBio. Em contraste, os assentamentos e caminhos trilhados pelos curadores apontam para alianças que desafiam a separação entre natureza e sobrenatureza. Essas alianças insurgentes — entre encantados, pedra, mato, terra e rios — não apenas resistem à simplificação ecológica, mas constituem formas de coabitação que não dissociam religião e natureza. Inspirada por Bispo dos Santos e pela noção de “terra como sujeito”, acompanho os efeitos do ataque espiritual e material aos terreiros e as mobilizações coletivas que dele emergem. Ao fazer emergir as fraturas do projeto moderno de preservação, o artigo reivindica modos de existência que se afirmam em alianças vivas entre mundos. 

Publicado

2026-09-08

Edição

Seção

ST 25 | Modos de existência que brotam nas frestas: natureza e sobrenatureza em alianças insurgentes