Culinárias cosmodivergentes na caatinga da Bahia
Resumo
Um dia na caatinga da Bahia pode inaugurar realidades indesejáveis para quem “come” coisas sólidas, líquidas ou etéreas de seres extra-humanos ou de humanos-mais-que-humanos. Se Caipora oferece piolho como alimento e o Bicho sua própria urina, o xamã dá sua palavra. Comer aqui não é um ato de manducação biológica, cultural ou simbolicamente orientada, mas um ato xamânico de transformação radical. Comer o piolho | licurí de Caipora, tragar a urina | fluído do Bicho ou ter suas “vistas” alteradas pela palavra do xamã (onde a realidade imediata se metamorfoseia à imagem prefigurada por este) indicam uma cozinha crua em que o sólido, o líquido e o etéreo são eles mesmos mediadores da transformação da cultura em natureza. É como se os caatingueiros da Bahia se recusassem não só a romper radicalmente essa relação (necessária em outros casos), mas necessitassem reatá-la, invertendo-a constantemente para não encerrar o que é e o que pode o humano – do mesmo modo em que se identifica um aliado (caatingueiro) ou um estranho (povo da rua) pelo seu desejo e capacidade de comer buchada ou farofa de vaqueiro. Logo, a comensalidade (com Caipora), a urofagia (com o Bicho) e se envultar com oração forte (com o xamã) são culinárias cosmodivergentes para tornar o humano sujeito outro, isto é, para ativar outro ponto de vista no humano. Tudo isso será relacionado com o lugar | dom do nativoetnógrafo na trama caatingueira dos dons, o mundo dos lapigados.