A cidade emerge do axé: Mapeando os encontros entre terreiros e a cidade de Belo Horizonte
Resumo
Este trabalho resulta do nosso envolvimento, desde 2023, com o projeto "Cartografia e Ecologia das Práticas Afro-diaspóricas em Belo Horizonte", que tem como objetivo mapear os territórios afro-religiosos da cidade, compreendendo-os como práticas sociais e não apenas técnicas. As práticas religiosas funcionam como mapas que ampliam a percepção sobre os espaços urbanos. Esses territórios envolvem os terreiros, suas conexões com outros grupos, instituições e práticas, além dos mapas cosmológicos que ligam entidades divinas a rituais. Como afirma Juana dos Santos (2002), "os limites da sociedade egbé não coincidem perfeitamente com os limites físicos do terreiro" — incluem rios, matas, encruzilhadas, cemitérios. Em Belo Horizonte, o espaço público também compõe o corpo das casas de axé, como exemplifica a Praça 13 de Maio, que acolhe há décadas celebrações aos Pretos Velhos, tornando-se um espaço sagrado. No entanto, os terreiros enfrentam disputas com o poder público, moradores e empresas de mineração, como no caso do Kilombo Manzo Ngunzo Kaiango e sua luta pela retomada da Serra do Curral. Outros, como a Associação Pai Manoel de Aruanda (Lagoinha) e o Centro de Caridade Força no Caminho (Venda Nova), enfrentam desafios impostos pela urbanização e pela desigualdade. Mapear esses territórios é também reconhecer a resistência, a memória e a continuidade das práticas ancestrais afro-diaspóricas na cidade.